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As Crónicas da Vítima

As Crónicas da Vítima

Escrevo e Apago ou os Resultados Da Minha Ânsia

07.03.22 | Bruno

 

Escrevo e apago.

Há momentos como este. Momentos em que a alma se inquieta de tal forma, que até sentar quieto é uma missão complicada. Há momentos em que a ansiedade bate forte: uma ânsia que não sei bem de onde vem e que não tem razão de ser. Acendo um cigarro. E acendo outro. Outro, ainda.

Escrevo e apago.

Porque posso escrever e apagar, mas não posso dizer e desdizer.  Porque posso sentir, olhar e ansiar, mas não posso combater quem sou, nem como sou. Porque um dia será sempre um dia e eu serei sempre eu - queira-se ou não, eu serei sempre eu.

Escrevo e apago.

Porque a noite vai alta e a ânsia consome-me. E com a ânsia, anseio sonhar com os vales dos meus velhos sonhos. Porque a sonhar, sou livre.

Boa noite!

Uma Sensação De Tristeza

06.03.22 | Bruno

Ultimamente, tenho-me sentido bastante triste.

Digamos que, ainda que eu diga que certas situações não me afectam, a verdade é que afectam. Sei que as mudanças de tempo, entre sol e chuva, chuva e sol, têm a sua quota parte de culpa no meu sentimento de tristeza. Sempre o tiveram.

Não sei bem como descrever a sensação que, muitas vezes, me invade, nem como me afecta. Sei que o tempo vai passando e, quando penso em como diziam que o tempo cura ou ameniza tudo, sinto que não podiam estar mais enganados. Há, na minha vida, demasiados mortos e demasiada gente que me foi deixando e que eu fui deixando para trás. Recentemente, larguei bastantes pessoas, fui largado por algumas e, em termos de mortes, nem há três anos cuidei daquela que foi uma das pessoas que me criou, enquanto o cancro a matava e a sua mente ia desaparecendo.

Sei que há pessoas que apontam dedos às escolhas de vida dos outros, ainda que estas não os afectem e que os outros nada lhes peçam. Tive a prova com alguém cujo relacionamento ficou sempre manchado por uma falha minha e pela forma de reacção da parte dela: no fim de contas, é muito engraçado mandar alguma moral, sem que exista qualquer moral para se falar.

Ultimamente, além da tristeza, tenho tido muito espaço para reflectir: sobre aquilo que quero, sobre aquilo que não, sobre a escrita, sobre o presente, sobre o futuro. Sei que, em alguns casos, os temas dos meus textos reptem-se incansavelmente, mas, como já disse muitas vezes, escrevo por mim e para mim. Escrevo, muitas vezes, para poder exorcizar os demónios que me afectam, por não saber como fazê-lo de outras formas.

A tristeza tem abundado para os meus lados e, sinceramente, há alturas em que é esmagadora. É como se todo o mundo desabasse em cima de mim ou como se um quarto escuro se fechasse sobre mim. Mas, como sempre, vai passar e vou ficar bem.

Como sempre.

Desafio De Escrita Do Triptofano | O Mimo Das Aparências

05.03.22 | Bruno

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No centro do palco. O holofote foca-o.

Faz o seus gestos estudados. Dá voltas e mais voltas, solta as suas gargalhadas silenciosas. Esbarra contra paredes imaginárias e esfrega a cabeça, como se a pancada tivesse sido dolorosa. Faz o seu número, pronto a ser o centro das atenções. Os outros, assitindo ao espectáculo, cercam-no. Uns riem. Outros, aplaudem. Outros, ainda, vêem através da cortina de fumo e nada dizem. No fim da actuação, o mimo sente-se vazio, só e uma lágrima invísivel escorre-lhe pela maquilhagem.

Assim é a nossa sociedade: um bando de mimos a gesticular de forma cuidada e estudada, muitas vezes perdidos nas aparências e no espectáculo que damos ao mundo. Corremos os dias a mostrar, aos demais, facetas que se distanciam da realidade, deixando-nos consumir ou consumindo-nos por estranhos em camas que não são as nossas (ou, se calhar, até são), igualmente sedentos de espectáculo e de se largarem no vazio do amor desprendido do momento. Passamos os dias a fazer rir os outros, enquanto a profundeza do nosso ser sangra. Por vezes, o nosso espectáculo é o mais negro de nós, o mais profundo sentimento de mágoa, dor, desespero, desilusão. Tudo é uma festa e tudo é uma tragédia.

O mimo é todo e qualquer um de nós. E, todo e qualquer um de nós, pode ser um mimo - no fim do dia, o vazio consome-nos e as lágrimas, por vezes inexistentes, consomem as nossas almas, na sede que temos de ser o centro das atenções, na sede que temos de amar ou ser amados, consumindo-nos em camas carregadas de corpos e desejo, mas sedentos disso mesmo: de amor! O riso de um festa pode ser a lágrima no vazio da cama e do quarto. O gesto de acariciar um corpo estranho - ou conhecido, mas a quem nada temos senão desejo - pode ser o gesto estudado ou espontâneo com que atravessamos o vazio da noite e os espaços do quarto.

Nota: texto escrito no âmbito do Desafio de Escrita do Triptofano.

Peço desculpa ao amigo Triptofano e aos amigos que acompanham o meu blog, por ter demorado um pouquinho mais a escrever este texto. Ainda tentei escrever um rascunho à mão, porque adoro escrever à mão e fazia-o com bastante frequência, mas parece que o meu humor oscilante dos últimos dias tem impedido que me sentasse e escrevesse o que fosse. No entanto, aqui estamos e espero, sinceramente, que apreciem o texto.

Devaneios e Lembranças

05.03.22 | Bruno

É curioso como, quando era adolescente e antes de ter sido atingido à força pela depressão, desenhar ajudava-me a acalmar a alma. Passava horas de volta de papéis, fazia desenhos rápidos, conseguia desenhar minimamente bem e, no fim, sentia-me esgotado como se tivesse transposto toda a minha alma naquela "obra de arte".Ainda durante o secundário, a minha amiga Luísa propôs-me que escrevesse, para complementar o sentimento que tirava de desenhar e foi assim que nasceu, mais ou menos, esta jornada que tem durado até hoje. E, a partir do momento em que comecei a tratar a depressão que tinha na altura, a partir do momento em que comecei a ser medicado, perdi todo o interesse no desenho, porque sentia que não havia muito que pudesse fazer. Se o arrependimento matasse...

Hoje em dia, escrevo. Para mim e só para mim. Escrevo nesta plataforma, após ter abandonado o Blogger (vulgo Blogspot) e ter decidido migrar as minhas velhas publicações para uma nova plataforma - as mesmas publicações que migrei para aqui, foram migradas para o meu blog em Inglês. Escrevo e, sinceramente, fico feliz de não me ter perdido por completo, quando me perdi da arte desenhada e pintada. Acho que, muitas coisas que passei não teriam sido tão "suaves" como foram, se não fosse pela escrita.

Enquanto ouço esta música, resquícios da minha adolescência, penso no tempo em que desenhava sem importar-me com o que diziam ou diriam os outros, em que batalhava para melhorar, sem achar que tinha certezas do que fosse. E, ainda que a escrita tenha ajudado a salvar-me e que me mantenha à tona muitas vezes, ainda não é suficiente. Penso, muitas vezes, em voltar a desenhar e em utilizar a Internet para procurar formações (tutoriais) de desenho e pintura, por forma a preparar a minha aprendizagem da arte, uma vez mais. 

Escrevo, neste momento, porque decidi avançar num dos desafios a que me propus, quando os encontrei pela plataforma do sapo, mas acabo por, no fundo, depositar mais um peso da minha alma - eu até sou engraçado e divertido, juro, mas tenho tendência a não o ser quando escrevo. Como já disse (escrevi) algumas vezes, a escrita é uma forma de libertar-me de demónios e de exorcizar-me, pelo que a minha tendência é expulsar a natureza melancólica da minha alma.

Para mim, é tarde na noite, ainda que o dia já dê sinais de começar lá fora - uma vez mais, resquícios da minha adolescência, com várias noites acordado a ouvir música e, na altura, a desenhar. Contudo, é aquela hora de deitar-me e dormir um bocadinho. Se, por acaso, lerem este texto, não se preocupem que estou bem: tenho-me sentido um pouco triste ultimamente, mas são sentimentos que, eventualmente, acabarão por ir embora.

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