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As Crónicas da Vítima

As Crónicas da Vítima

Amélie e a farsa dos cuidados de saúde mental

21.01.22 | Bruno

Ultimamente, fala-se muito de negacionismo. Usa-se muito esse termo, especialmente derivado a pessoas que têm dúvidas sobre a eficácia das vacinas de Covid-19. Contudo, o título dete texto é um bocado enganador: não sou negacionista dos cuidados profissionais de saúde mental.

Não acompanhei a onda de partilhas que se fizeram nas redes sociais aquando do desaparecimento de Amélie Battle Bastos, senão uma partilha que vi no Twitter. Estava no café, quando odno do café que frequento comentou que o corpo da rapariga tinha sido encontrado, depois da mesma ter saído de casa com alguns medicamentos. Com isto, surgem sempre aquelas ondas de solidariedade, aquelas ondas de "devíamos ver o que se passa à nossa volta" e demais frases que são proferidas e escritas quando um caso destes acontece. E este género de frases costuma irritar-me:

  • já sofri de depressão e, aquando de mudanças de tempo, o meu cérebr ainda dá umas guinadas;
  • desde que a minha tia morreu de cancro e que cuidei dela, desde o diagnóstico, até à sua morte, os amigos desapareceram e os conhecidos, muitas vezes, ignoram mensagens;
  • quem está à volta, reage a dias enfiado em casa ou na cama, como uma questão de preguiça e de boa vida, como se não fosse uma forma de não ter de lidar com o facto de ter acordado e estar vivo para mais um dia.

É por isso que o meu título se refere à farsa dos cuidados de saúde mental: não são os cuidados profissionais de saúde mental que são uma farsa, são aqueles que estão à nossa volta e que, à custa de uns likes, de comentários em concordância, com o seu falso moralismo e cuidado com o próximo, debitam frases mais que gastas, enquanto julgam ou ignoram aquele amigo ou conhecido que sofre mesmo ao seu lado.Esses cuidadores da saúde mental é que são os farsantes.

Uma pequena nota: quando menciono essas frases que se partilham em busca de aprovação, de gostos nas redes sociais ou de concordâncias hipócritas sempre que um caso destes acontece, não são proferidas quando são forças da autoridade a cometer suicídio. Muitas vezes, pessoas ligadas a certos partidos da nossa praça política, fazem comentários de júbilo, utilizando frases como "a arma deve ter escorregado e disparado contra ele. Espero que a arma esteja bem". Estendo aqui a minha solidariedade a todas as forças de segurança e aos seus agentes que possam estar a sofrer com depressão ou qualquer outro transtorno mental.