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As Crónicas da Vítima

As Crónicas da Vítima

O que não quero, principalmente!

03.11.21 | Bruno

Por que é que as palavras soam tão melhor na mente, do que escritas? E por que é que parece ser mais fácil desenvolver um texto, começado pelo meio, mentalmente, do que quando se senta em frente ao computador? É que, neste momento, é este o caso.

Quem me conhece, sabe que há muitos anos que evito o amor. E, diga-se de passagem, tenho tido bastante sucesso em evitar ganhar sentimentos: nos meus 34 anos de vida, namorei duas vezes na adolescência e ganhei sentimento por dois homens, com os quais nada tive. Mas isto, é apenas um detalhe que, no fim de contas, serve apenas para situar onde este texto vai dar.

Recentemente, tive uma espécie de "esgotamento depressivo" e uma consulta no médico de família é uma espera garantida: marcação de consultas aberta no dia 29, ao fim da tarde apanhei a última vaga para dia 29 do mês que corre. Contudo, este episódio depressivo poderia ter sido apenas mais um, que se repete sempre que acontece uma mudança de tempo de qualquer espécie, não fosse a força e a profundidade da mesma, aliados à sua longa duração. Apesar da força com que me atingiu e da duração estranhamente longa, não sei se foi pelo melhor que acabei a pensar na vida e a ponderar as coisas que quero para mim e, especialmente, aquelas que não quero.

Escrevei sobre evitar sentimentos, mas com isso arrastei-me, por toda a minha vida, para uma vida sexual de muitos e variados parceiros. Para colmatar qualquer falha sentimental, afogava-me no sexo e, até agora, tudo bem. Contudo, recentemente a trocar mensagens com um dos homens com quem me envolvo ocasionalmente (dos poucos, actualmente), acabei por receber uma bofetada escrita: agradeço, sinceramente, toda a honestidade que me foi dada ali, nua e crua, mas ler aquilo fez-me perceber o tanto (ou tão pouco) de respeito próprio que me tenho oferecido ao longo de anos. Pensei, também, em quantas vezes andei quilómetros para estar com alguém, em quantas vezes me coloquei em situações arriscadas, em quantas vezes saí de casa à pressa, por pessoas que não fazem nem um décimo daquilo que eu fazia. Basicamente, era usar a técnica do aqui me queres, aqui me tens, para sair depois e voltar a andar os mesmos quilómetros para trás, ter boleia de volta apenas até parte do caminho ou regressar a casa, desta vez, mais calmamente.

Nestes últimos tempos, talvez através do olhar da depressão, comecei a ver mais claramente o que quero e o que não quero, como já mencionei. Não quero, por exemplo, receber mensagens às dez da noite, para fumar uma, que mais não é que andar uns cinco ou seis quilómetros, para foder, fumar uma, foder, vestir-me e vir-me embora; não quero receber mensagens e chamadas às cinco e seis da manhã, para fumar uma ou beber café, que resultará em estar a olhar para alguém a drogar-se à força toda, depois de uma noite de bebida; não quero, e este foi difícil de largar, receber as mensagens do passa aí, para que me virem a cara na rua, para que nem falem comigo. E a lista poderia prolongar-se.

No que foi difícil de largar, há uma pessoa (apenas mais um), que cruzou a barreira da curiosidade. Com isso, já me bloqueou, por não saber lidar vom aquilo que escolheu. Procurou-me noutras redes sociais, mandava mensagens, encontrávamo-nos, tínhamos aqueles bons momentos e eu vinha-me embora, quase desprezado. No fim de semana passado, após quase quatro anos nestas andanças e após alguns meses a ponderar pôr um fim a isto, decidi dizer que já chegava destes encontros. 

"então?"

"uma fase difícil com depressão e é o melhor nesta altura"

"okay"

Ao olhar da depressão, aliada ao que tenho vindo a armazenar, pus um fim a isto. Três foram-se, mas o mais difícil de largar foi este último, jovem e cheio de testosterona e indiferença. Se me custou? Inicialmente, pensei que sim, que iria custar, mas a sensação de libertação tem sido maior. As mensagens deste rapaz foram apagadas e tinha restringido as suas interacções para comigo no Instagram e bloqueado o seu Messenger, o que desfiz: sei que, conhecendo o pouco que conheço, que, provavelmente, voltará a enviar mensagem em pouco tempo. Talvez falhe comigo mesmo e aceite reencontrar-me com ele pelo que me faz sentir (não, não é sentimentalmente, é hormonalmente), mas sei que a hipótese de lhe dizer que o fim dos nossos encontros é definitivo é maior que a de falhar-me. E, se questionar-me o porquê, digo-lhe que quero algo com futuro, não de momentos.

Com tudo isto, escrevi sobre o que não quero. Sobre não querer continuar a ser um momento para alguns e, ainda assim, ser aquele que coloca mais esforço nissodo que aqueles que realmente desejam o que costumam conseguir. Com estes, ainda lhes dei essa resolução; com outros, deixei de responder a mensagens e de atender chamadas, desapareci. Mas e o que quero? Sinceramente, essa questão é algo que me custa responder: quero conseguir ultrapassar essa desconfiança que me faz detestar toda a gente e não confiar em ninguém, ao ponto de não ser capaz de entrar e trabalhar uma relação; quero ser capaz de partilhar todos os meus segredos com alguém (alguns, vá!); quero conseguir compartilhar os bons momentos com alguém que seja mais que um amigo (onde é que eles estão?) e, especialmente, conseguir compartilhar os meus maus e péssimos momentos, cuja tendência é a de afastar-me e passar por eles sozinho... Quero algumas coisas, sem ter a certeza do que quero. Mas tenho a certeza daquilo que não quero.

Se me sinto só? Digo sempre que não, mas já passei por momentos em que me senti extremamente só: um diagnóstico complicado há uns anos, enquanto chorava baba e ranho sozinho numa casa de banho de um hospital; um internamento de três (?) semanas, sem avisar ninguém (apenas a minha mãe e a minha tia) e sem que ninguém procurasse saber o motivo do meu desaparecimento; mais recentemente, em 2019, a minha tia foi diagnosticada com um tumor terminal. Fui eu que recebi o diagnóstico dela, fui eu que cuidei dela, fui eu que tratei de quase tudo, sempre sozinho e, sinceramente, houve momentos em que pensei desistir de tudo, até porque, de tantos "amigos", pude contar com três pessoas. Toda a minha vida tem sido isto e sim, nestes momentos, tenho-me sentido só. Se são estes momentos que me fazem ponderar um futuro com alguém? Não. Se idealizo esse mesmo futuro? Também não! Mas, de vez em quando, essa ideia atravessa a minha mente. Sei que, tal como o facto de "andar a limpar a casa" dever-se à depressão, estes pensamentos de um futuro com alguém advém daí e, muito provavelmente, o meu ódio generalizado à humanidade, a minha falta de confiança para com a generalidade das pessoas e o facto de aceitar a minha sexualidade, mas não gostar de ter sido assim, irão manter-me á margem desse mesmo "futuro".

Não escrevo este texto para ganhar simpatias, ódios, palmadinhas nas costas, nem o que seja. Escrevo, ainda que algo confuso, para aliviar o que não tenho conseguido chorar nestes dias, quando a vontade era de me deitar na cama, não me levantar e chorar o dia inteiro. Escrevo, porque chorei uns cinco minutos de manhã, embora a vontade de continuar fosse gritante, o facto é que as lágrimas não caíram mais.

"Uma pessoa que é só é perigosa, pois ela sabe que consegue sobreviver a tudo"

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