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As Crónicas da Vítima

As Crónicas da Vítima

Se Não Souberem Onde Encontrar-me

14.02.22 | Bruno

Se não souberem onde me encontrar, olhem para a fantástica lua (quase) cheia que está hoje. Estiquem o braço e tracem gestos pelo ar, como se tentassem alcançar-me, como se acariciassem o espaço.

Sou bem capaz de passar horas seguidas a ouvir sons destes, músicas destas, a sentir o infinito a invadir-me, como se o infinito fosse a minha própria essência. Como se o infinito me devolvesse todas as vidas numa só e como se os fantasmas que me assombram fossem, em si, eu mesmo, em mim. Sou eu que traço gestos imaginários e bem estudados pelos espaços que ocupo.

Se não souberem onde encontrar-me, não se preocupem, pois nem eu sei onde encontrar-me.

Há anos, olhando para as pessoas que passavam na rua com caras cerradas, caras sérias, incapazes de esboçar um sorriso, perguntava-me como seriam as pessoas capazes de tal. Anos passados, entendo: quando a vida nos rouba tudo e quando todos vão-se embora e nós vamos ficando; quando já nos fomos embora há muito tempo e, ainda assim, o nosso corpo permanece.

Se não souberem onde em encontrar, sou o vento frio que vos beija a face. Sou a lua que segue os vossos carros e que vos olha de volta lá do seu alto. Sou os gritos silenciosos soltados no alto da minha torre de solidão. Sou a saudade que sentem de alguém, de algum lugar que nunca viram e no qual nunca pisaram, mas que vos deixa o vazio dessa mesma saudade.